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2026-08-12
A possibilidade de substituir a cirurgia imediata por vigilância ativa em mulheres com carcinoma ductal in situ (DCIS) de baixo risco continua a ser alvo de investigação. Novos dados apresentados no 15.º Congresso Europeu de Cancro da Mama (European Breast Cancer Conference) sugerem que a vigilância ativa poderá ser uma alternativa viável para algumas doentes, mas os investigadores consideram que ainda é necessário um acompanhamento mais prolongado antes de alterar a prática clínica.
Os resultados apresentados incluem dados provisórios de dois ensaios clínicos de fase III: o estudo europeu LORD e o estudo britânico LORIS, ambos destinados a avaliar se a vigilância ativa pode substituir a cirurgia em casos de DCIS de baixo risco.
Embora os resultados sejam encorajadores, os investigadores sublinham que ainda não permitem concluir que a vigilância ativa seja equivalente à cirurgia.
Na análise intercalar do estudo LORD, a sobrevivência livre de cancro da mama invasivo na mesma mama foi semelhante entre os grupos de vigilância ativa e cirurgia.
Ao fim de dois anos, esta taxa foi de 94,3% no grupo de vigilância ativa e de 90,6% no grupo submetido a cirurgia.
Após quatro anos de seguimento, os valores foram de 86,6% e 88,4%, respetivamente.
Segundo Jelle Wesseling, investigador principal do estudo, a incidência de cancro invasivo foi muito baixa, sugerindo que, nesta fase, a vigilância ativa não parece ser menos segura do que o tratamento padrão.
No entanto, o investigador salientou que será necessário um seguimento mais prolongado antes de serem retiradas conclusões definitivas.
O estudo LORIS apresentou resultados diferentes.
Ao fim de cinco anos, 87,5% das mulheres acompanhadas em vigilância ativa permaneceram livres de cancro invasivo na mesma mama, comparativamente com 94,2% das mulheres submetidas a cirurgia.
O estudo não conseguiu demonstrar a margem de não inferioridade previamente definida.
Na análise baseada no tratamento efetivamente realizado, verificou-se cancro invasivo em 10,7% das mulheres do grupo de vigilância ativa e em 2,9% das mulheres submetidas a cirurgia.
Apesar destas diferenças, não foram registadas mortes por cancro da mama em nenhum dos grupos.
Os investigadores referem ainda que não foram observadas diferenças entre os grupos relativamente ao bem-estar psicológico, ansiedade ou estado geral de saúde reportado pelas participantes.
No estudo LORD, a interpretação dos resultados foi também influenciada pela forma como os eventos foram contabilizados.
Na análise inicial, os casos de cancro invasivo identificados durante a cirurgia inicial no grupo tratado cirurgicamente não foram considerados eventos, o que favoreceu aparentemente a cirurgia.
Quando esses casos foram incluídos numa análise de coorte, a incidência cumulativa de cancro invasivo passou para 9% no grupo tratado segundo a abordagem padrão e 6% no grupo de vigilância ativa.
Os estudos LORIS e LORD fazem parte de um conjunto mais alargado de ensaios clínicos que procuram determinar se a vigilância ativa pode constituir uma alternativa segura à cirurgia em mulheres com DCIS de baixo risco.
Este grupo inclui também o estudo norte-americano COMET e o estudo japonês LORETTA.
Segundo Shelley Potter, professora de oncologia cirúrgica da Universidade de Bristol, o sobrediagnóstico e o sobretratamento continuam a ser desafios importantes no DCIS.
A especialista recorda que cerca de 25% dos cancros da mama detetados através do rastreio correspondem a DCIS e sublinha que esta doença é muito heterogénea, não evoluindo todos os casos para cancro invasivo.
Por isso, considera essencial identificar com maior precisão quais os casos de baixo risco e quais os que apresentam maior probabilidade de progressão.
Os dados apresentados indicam também que muitas mulheres demonstram abertura para optar pela vigilância ativa.
No estudo COMET, mais participantes passaram do grupo inicialmente atribuído à cirurgia para a vigilância ativa do que no sentido inverso, sugerindo que muitas doentes se sentiram confortáveis com esta opção.
Já o estudo LORETTA foi interrompido pelo comité independente de monitorização de segurança após o número de casos de cancro invasivo ultrapassar o limite previamente definido pelo protocolo.
Apesar dos resultados encorajadores, os investigadores consideram que os dados atualmente disponíveis ainda não permitem substituir a cirurgia pela vigilância ativa em mulheres com DCIS de baixo risco.
Segundo Jelle Wesseling, os resultados intermédios são tranquilizadores, não existindo, até ao momento, indicação de que a vigilância ativa conduza a piores resultados precoces quando comparada com a cirurgia imediata.
Também Isabel Rubio, cirurgiã oncológica da Clínica Universidad de Navarra, considera que um acompanhamento mais prolongado poderá vir a apoiar uma abordagem mais conservadora em doentes cuidadosamente selecionadas, permitindo evitar tratamentos desnecessários sem comprometer os resultados clínicos.
Até que esses dados estejam disponíveis, os especialistas defendem que a decisão terapêutica deve continuar a ser individualizada e baseada na evidência atualmente existente.
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