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O local onde uma pessoa com cancro vive tem um peso cada vez maior nas suas probabilidades de sobrevivência. Dois novos relatórios globais mostram que as diferenças entre países de rendimento elevado e países de rendimento baixo ou médio continuam a aumentar, apesar da existência de ferramentas capazes de reduzir estas desigualdades.
Um dos documentos é o relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS), Global status report on cancer 2026: the future we choose together. O outro, baseado na base de dados GLOBOCAN da Agência Internacional de Investigação em Cancro (IARC), analisa a incidência, mortalidade e fatores de risco associados à doença.
Em 2024, foram registados globalmente quase 21 milhões de novos casos de cancro e cerca de 10 milhões de mortes. Os dados indicam ainda que uma em cada cinco pessoas desenvolverá cancro antes dos 75 anos.
O cancro do pulmão manteve-se como o mais diagnosticado, representando 12,8% dos casos, e como a principal causa de morte por cancro, com 19,1% das mortes. Seguiram-se, entre os diagnósticos mais frequentes, os cancros da mama feminina, colorretal, próstata e estômago.
As projeções apontam para um agravamento da carga global da doença: o número de novos casos poderá atingir 34,4 milhões em 2050, um aumento de 67% relativamente a 2024, com os maiores aumentos proporcionais previstos nos países com menor Índice de Desenvolvimento Humano.
As diferenças são particularmente evidentes na sobrevivência. Segundo a OMS, a sobrevivência líquida aos cinco anos no cancro da mama ultrapassa os 85% nos países de rendimento elevado, enquanto fica abaixo dos 45% nos países de baixo rendimento. A deteção mais precoce nos países de rendimento elevado é apontada como um dos fatores que contribuem para esta diferença.
Também existem desigualdades noutros tumores. No cancro colorretal, a sobrevivência aos cinco anos foi de 63% nos países de rendimento elevado, 54% nos de rendimento médio-alto e 39% nos de rendimento médio-baixo. No cancro da próstata, os valores foram, respetivamente, 90%, 80% e 59%.
Quase 38% dos 18,7 milhões de casos de cancro diagnosticados em 2022 estavam associados a fatores de risco modificáveis, incluindo tabagismo, consumo de álcool, índice de massa corporal elevado e baixos níveis de atividade física. A proporção foi superior nos homens — 45% — comparativamente a 30% nas mulheres.
O relatório GLOBOCAN estima ainda que 48% das mortes por cancro a nível mundial são potencialmente evitáveis: 33% através da prevenção de fatores de risco modificáveis e 15% através da deteção precoce e de um melhor acesso ao tratamento.
Cerca de 10% dos novos casos diagnosticados em 2022 estavam associados a infeções, nomeadamente Helicobacter pylori, hepatites B e C, vírus do papiloma humano (HPV) e vírus Epstein-Barr.
Apesar dos progressos na vacinação contra o HPV, a cobertura global indicada no relatório situa-se nos 31%, acima dos 17% estimados pela OMS em 2019, mas ainda distante da meta de 90% até 2030.
Os relatórios destacam que o problema não reside apenas na existência de conhecimento científico ou de tratamentos, mas também na capacidade de os implementar e tornar acessíveis.
Embora 82% dos países disponham de planos nacionais de controlo do cancro, muitos continuam sem financiamento ou sem implementação efetiva.
Entre 2000 e 2019, a mortalidade prematura por cancro diminuiu em 138 dos 183 países analisados. No entanto, as projeções até 2050 apontam para uma evolução desigual, com menores reduções nos países de rendimento baixo e médio.
Os dados reforçam, assim, uma realidade central apresentada pelos dois relatórios: a carga global do cancro continua a crescer e as possibilidades de prevenção, diagnóstico e sobrevivência permanecem profundamente desiguais entre diferentes regiões e níveis de rendimento.
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