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O rastreio faz parte da prática clínica e da prevenção em saúde. No entanto, segundo George D. Lundberg, médico e autor do comentário "Rethinking Routine Screening of Asymptomatic Patients", publicado na Medscape, a realização de exames em pessoas sem sintomas deve ser cuidadosamente ponderada e baseada na evidência científica, de forma a garantir que os benefícios superam os potenciais riscos.
O autor defende que o desafio não está em decidir se se deve ou não rastrear, mas sim em assegurar que cada rastreio acrescenta valor clínico e não conduz a danos desnecessários ou a custos evitáveis.
Segundo George D. Lundberg, todas as pessoas fazem diariamente uma forma de autoavaliação da sua saúde, observando se surgiram dores, alterações físicas ou outros sinais que possam indicar algum problema.
Quando uma pessoa não apresenta sintomas, o médico deve avaliar cuidadosamente se um exame complementar irá efetivamente trazer benefícios, evitando a realização de testes sem indicação clínica.
O autor considera que o rastreio dirigido, baseado na evidência científica e adaptado ao risco individual, pode salvar vidas. Em contrapartida, quando é realizado por rotina, hábito, pressão comercial ou apenas para proporcionar tranquilidade, pode produzir efeitos contrários aos pretendidos.
O comentário identifica três riscos principais associados ao rastreio indiscriminado em pessoas assintomáticas.
Em populações de baixo risco, mesmo exames com elevada especificidade podem originar um número significativo de falsos positivos.
Esses resultados podem desencadear uma sequência de exames adicionais, meios complementares de diagnóstico, biópsias e ansiedade para o doente.
O autor refere ainda que o sobrediagnóstico é particularmente preocupante quando leva ao tratamento de lesões que nunca chegariam a causar sintomas ou a reduzir a esperança de vida, situação documentada em alguns casos de alterações da tiroide, da mama e da próstata.
George D. Lundberg explica que identificar precocemente uma doença de crescimento lento pode aumentar artificialmente o tempo durante o qual o doente sabe que tem a doença, sem que isso altere a sua sobrevivência.
Nestes casos, a deteção precoce prolonga o período vivido com o diagnóstico, mas não necessariamente a duração da vida.
O autor sublinha que cada minuto utilizado na investigação de alterações sem relevância clínica representa tempo que deixa de ser dedicado a intervenções com benefício comprovado.
Como exemplos, refere o controlo adequado da pressão arterial, a cessação tabágica e a vacinação baseada na evidência.
O comentário aborda também a dimensão económica dos rastreios realizados sem indicação clínica.
Segundo um estudo do National Cancer Institute citado pelo autor, os Estados Unidos gastam cerca de 43 mil milhões de dólares por ano em rastreios iniciais de cancro.
Grande parte desse valor corresponde às colonoscopias de rastreio, que representam aproximadamente 27,5 mil milhões de dólares anuais.
George D. Lundberg alerta que alguns exames podem desencadear uma sucessão de consultas, exames complementares e procedimentos, gerando custos elevados.
Como exemplo, refere o rastreio do antigénio específico da próstata (PSA), salientando que ensaios clínicos demonstraram que, para muitos homens, este rastreio resultou em prejuízo líquido, incluindo disfunção erétil, incontinência urinária e complicações cirúrgicas associadas ao tratamento de tumores que poderiam nunca ter provocado sintomas.
O autor destaca igualmente os resultados do estudo NordICC, que acompanhou mais de 80 mil pessoas assintomáticas.
Segundo o comentário, este estudo não demonstrou uma redução estatisticamente significativa da mortalidade por cancro colorretal ao fim de 13 anos entre as pessoas convidadas para realizar colonoscopia e aquelas que receberam os cuidados habituais.
O valor psicológico de um resultado normal
George D. Lundberg reconhece que um resultado normal pode proporcionar tranquilidade tanto ao doente como ao profissional de saúde.
No entanto, questiona se essa sensação de segurança justifica a utilização de exames potencialmente dispendiosos ou com riscos associados quando não existe uma indicação clínica clara.
Segundo o autor, esta necessidade de tranquilização constitui um dos fatores que ajudam a explicar a persistência do recurso a rastreios indiscriminados.
Apesar das críticas ao rastreio sem indicação, George D. Lundberg sublinha que existem programas de rastreio cuja eficácia está demonstrada.
Entre os exemplos referidos encontram-se o rastreio do cancro do pulmão em pessoas de alto risco, o rastreio do cancro do colo do útero e a avaliação dos lípidos e da pressão arterial, suportados por evidência científica de redução da mortalidade e melhoria da qualidade de vida.
O autor defende que o papel do médico deve centrar-se na interpretação do risco individual e na orientação do doente, em vez da solicitação sistemática de exames sem indicação.
Conclui que qualquer decisão de realizar um rastreio deve respeitar o princípio orientador da prática clínica: "Primeiro, não causar dano."
VOLTARFonte: https://www.medscape.com/viewarticle/rethinking-routine-screening-asymptomatic-patients-2026a1000msz
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