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Durante muito tempo, os cardiologistas mantiveram alguma cautela relativamente ao consumo de café e, em particular, de cafeína, devido ao seu potencial efeito sobre a pressão arterial e ao receio de arritmias e de outros riscos cardiovasculares.
Um novo posicionamento científico da American Heart Association (AHA), publicado na revista Circulation, analisa de forma abrangente os efeitos do café no sistema cardiovascular e aponta para uma conclusão favorável ao seu consumo moderado.
Ainda assim, o documento chama a atenção para uma distinção fundamental: café e cafeína não são exatamente a mesma coisa.
Grande parte do conhecimento disponível sobre cafeína em humanos resulta de estudos observacionais realizados em consumidores de café e chá, o que introduz várias dificuldades na interpretação dos resultados.
Uma delas é o chamado efeito do utilizador saudável. Os consumidores moderados de café — por exemplo, duas a três chávenas por dia — podem ter estilos de vida globalmente mais organizados e saudáveis do que pessoas que consomem bebidas energéticas em excesso ou que evitam completamente o café devido a uma doença preexistente.
Além disso, o café não contém apenas cafeína. É uma matriz química complexa, com mais de 1.000 compostos biologicamente ativos, entre os quais ácidos clorogénicos, diterpenos, melanoidinas e trigonelina.
Isto significa que, quando um estudo associa o café a determinado efeito, pode ser difícil perceber se este resulta diretamente da cafeína ou de outros componentes presentes na bebida.
Existe ainda um importante fator genético. A cafeína apresenta uma biodisponibilidade oral próxima dos 100% e atinge o pico na corrente sanguínea dentro de aproximadamente uma hora. No entanto, a sua metabolização depende da enzima CYP1A2 e de variantes genéticas específicas. Por esse motivo, a sua meia-vida pode variar entre cerca de duas e 12 horas.
Durante muito tempo, o consumo de café foi encarado com alguma cautela no contexto da saúde cardiovascular, sobretudo devido aos possíveis efeitos da cafeína na pressão arterial e no ritmo cardíaco. No entanto, um novo posicionamento científico da American Heart Association (AHA), publicado na revista Circulation, reúne décadas de investigação e apresenta uma perspetiva mais favorável sobre o consumo moderado de café.
A principal conclusão é que o café não deve ser analisado apenas através da cafeína. A bebida contém mais de 1.000 compostos biologicamente ativos e os seus efeitos podem variar consoante a quantidade consumida, a forma de preparação e até características individuais.
Um dos desafios da investigação nesta área é precisamente distinguir os efeitos da cafeína dos restantes componentes do café.
A resposta à cafeína também varia entre pessoas. A enzima CYP1A2 é responsável por grande parte da sua metabolização no fígado e, devido a diferenças genéticas, a meia-vida da cafeína pode variar aproximadamente entre 2 e 12 horas.
Além disso, a fonte da cafeína é relevante. Em adultos saudáveis, as bebidas energéticas com elevadas concentrações de cafeína sintética podem provocar um aumento agudo e significativo da pressão arterial sistólica e diastólica. Já o extrato de grão de café verde demonstrou reduzir a pressão arterial, provavelmente devido à ação do ácido clorogénico.
O café não filtrado — como o preparado em prensa francesa, café turco ou café fervido — contém níveis elevados de cafestol, um diterpeno que demonstrou aumentar o colesterol LDL.
Quando o café passa por um filtro de papel, o cafestol fica retido. De acordo com os dados apresentados, o café filtrado e o café solúvel não têm, essencialmente, impacto no colesterol.
Este é um dos pontos em que os dados apresentados contrariam uma ideia bastante enraizada.
As metanálises de estudos observacionais mostram que o consumo moderado de café está associado a um risco neutro ou reduzido de fibrilhação auricular.
O posicionamento destaca ainda um ensaio clínico randomizado realizado em pessoas com história de fibrilhação auricular submetidas a cardioversão eletiva. Os participantes foram distribuídos entre evitar completamente a cafeína ou consumir pelo menos uma chávena de café com cafeína por dia.
No grupo que consumiu café verificou-se uma redução estatisticamente significativa de 39% no risco de recorrência de fibrilhação auricular. As diretrizes mais recentes do American College of Cardiology e da AHA recomendam, por isso, que os médicos não aconselhem os doentes a abandonar a cafeína com o objetivo de reduzir o risco desta arritmia.
Contudo, o artigo salienta uma diferença importante: embora o café possa ter um efeito favorável relativamente às arritmias auriculares, ensaios clínicos randomizados indicam que quantidades normais de café com cafeína podem aumentar significativamente a frequência de extrassístoles ventriculares.
Quando se analisam outros desfechos cardiovasculares, os resultados apresentados são igualmente relevantes.
No caso da doença arterial coronária, o consumo de até seis chávenas por dia não esteve associado a um aumento do risco, tendo o risco mais baixo sido observado entre quem consumia duas a três chávenas diariamente.
Relativamente à insuficiência cardíaca, grandes estudos de coorte identificaram o risco absoluto mais baixo entre as pessoas que bebiam quatro chávenas de café por dia.
Os dados relativos ao acidente vascular cerebral (AVC) apresentam uma tendência semelhante: o consumo moderado de três a quatro chávenas por dia esteve associado a uma redução de 21% no risco de AVC.
Os resultados favoráveis associados ao café e ao chá não devem ser extrapolados para doses elevadas de cafeína sintética.
O painel da AHA estabelece um limite claro relativamente ao consumo de cafeína concentrada presente em bebidas energéticas, preparados em pó para utilização antes do exercício ou comprimidos de cafeína. O artigo refere também relatos de casos de jovens previamente saudáveis que sofreram fibrilhação ventricular e paragem cardíaca súbita após o consumo de bebidas energéticas altamente concentradas.
De acordo com o posicionamento científico apresentado no artigo, o consumo moderado de cafeína — aproximadamente três a cinco chávenas de 240 ml de café filtrado — não é prejudicial e pode estar associado a efeitos cardioprotetores.
A evidência apresentada reforça, contudo, que a quantidade e a forma como o café é consumido fazem diferença. Café filtrado e consumo moderado não são equivalentes à ingestão de grandes quantidades de cafeína concentrada através de bebidas energéticas, comprimidos ou outros preparados.
O novo posicionamento da American Heart Association oferece, assim, uma perspetiva mais favorável sobre uma bebida que faz parte do quotidiano de milhões de pessoas, mantendo simultaneamente uma distinção clara entre o consumo moderado de café e a exposição a doses elevadas de cafeína concentrada.
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