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Como a leitura de ficção pode contribuir para uma melhor prática médica

2026-07-27

Como a leitura de ficção pode contribuir para uma melhor prática médica

Médicos partilham como os romances que leram ajudaram a desenvolver empatia, inteligência emocional e uma prática clínica mais humana

Para muitos médicos, ler romances pode parecer um luxo perante a exigência do dia a dia. No entanto, vários profissionais de saúde defendem que a leitura de ficção pode contribuir para o desenvolvimento de competências importantes na prática clínica. Além de proporcionar momentos de descontração, a literatura poderá ajudar a desenvolver a inteligência emocional, a empatia e uma compreensão mais profunda da experiência humana.

A leitura de ficção e a inteligência emocional

Jennifer Chung, médica de Medicina Interna e Medicina Funcional e do Estilo de Vida, afirma que a leitura de ficção a ajudou não apenas a relaxar no final do dia, mas também a fortalecer a sua inteligência emocional enquanto médica.

Segundo a especialista, as histórias permitiram-lhe observar o sofrimento humano, bem como o amor, a perseverança e a resiliência, através de perspetivas diferentes da sua própria.

O artigo refere que diversos estudos apoiam esta ideia, destacando benefícios da leitura para a saúde mental e emocional. Um estudo publicado na revista Social Cognitive and Affective Neuroscience concluiu que as pessoas que leem ficção com maior frequência apresentaram níveis mais elevados de cognição social. Os investigadores sugerem que a leitura estimula a chamada rede neural por defeito do cérebro, responsável pela simulação de cenários hipotéticos e estados mentais.

Benefícios na relação médico-doente

David Tzall, psicoterapeuta, considera que estes efeitos podem traduzir-se em qualidades importantes para a prática clínica, como a empatia.

Segundo o especialista, ao ler ficção, o leitor não se limita a processar palavras. Vive as experiências das personagens, acompanha as suas alegrias, dores e dificuldades, simulando essas vivências na própria mente.

Tzall acrescenta que este processo poderá fortalecer as redes neuronais envolvidas nas interações sociais e contribuir para alterações na conectividade cerebral através da neuroplasticidade.

Na prática clínica, considera que isso ajuda os médicos a compreender melhor a experiência emocional e social da doença, permitindo uma abordagem mais personalizada dos cuidados.

Não existe um género literário ideal

De acordo com os especialistas citados, não existe um tipo específico de ficção que produza estes efeitos. Qualquer história envolvente poderá proporcionar benefícios semelhantes.

O artigo apresenta vários livros que diferentes médicos consideram ter influenciado positivamente a sua prática clínica.

The Measure, de Nikki Erlick

Sarah Kelley, pediatra, destaca o romance The Measure, publicado em 2022.

A obra imagina um mundo onde todas as pessoas, ao completarem 21 anos, recebem uma caixa contendo um fio cujo comprimento corresponde ao tempo de vida que lhes resta.

Segundo a médica, o livro levou-a a refletir sobre o equilíbrio entre aproveitar a vida e fazer escolhas saudáveis, bem como sobre temas relacionados com o conhecimento obtido através dos testes genéticos.

Na sua perspetiva, a história estabelece um paralelo com testes como o BRCA em crianças, recordando que é importante que os doentes compreendam plenamente as implicações dos resultados antes de os receberem.

A Thousand Splendid Suns, de Khaled Hosseini

Jennifer Chung refere que A Thousand Splendid Suns teve um impacto significativo na sua prática.

O romance acompanha duas mulheres afegãs, Mariam e Laila, que desenvolvem uma amizade improvável apesar das difíceis circunstâncias em que vivem.

Segundo Chung, a obra aborda temas como o sofrimento humano, a injustiça, a marginalização das mulheres, a pobreza, a guerra e o abuso.

A médica afirma que muitos doentes, sobretudo imigrantes e pessoas pertencentes a grupos minoritários, transportam histórias de sofrimento que nem sempre são imediatamente visíveis. A leitura do romance recordou-lhe que existe frequentemente muito mais por detrás da história clínica inicial e reforçou a importância de saber ouvir.

My Name Is Mary Sutter, de Robin Oliveira

David Ghozland, ginecologista, destaca o romance histórico My Name Is Mary Sutter.

A protagonista é uma parteira que luta para exercer cirurgia durante a Guerra Civil Americana.

Segundo o especialista, Mary reúne características que considera fundamentais num bom médico: competência técnica, determinação, paixão e capacidade de manter a humanidade em situações extremamente difíceis.

Refere ainda que a obra reforçou a importância de os doentes se sentirem vistos, ouvidos e apoiados ao longo do processo de recuperação.

Anne of Green Gables, de L. M. Montgomery

Liz Daniels, pediatra, considera que o clássico Anne of Green Gables a tornou uma melhor médica.

Segundo a especialista, desde a infância que se inspira na personagem Anne Shirley e, mais tarde, durante a formação médica, voltou a encontrar nessa personagem um exemplo de justiça, compaixão e atenção às pessoas frequentemente ignoradas.

Hoje procura levar essa mesma perspetiva para a consulta de Pediatria, recordando que as crianças merecem dignidade, respeito e consideração.

Never Let Me Go, de Kazuo Ishiguro

Ali Cadili, cirurgião geral, destaca Never Let Me Go, de Kazuo Ishiguro.

O romance acompanha um grupo de crianças que cresce num internato britânico, descobrindo posteriormente que foi criado para fornecer órgãos a outras pessoas.

Segundo o médico, a obra aprofundou a sua reflexão sobre questões éticas na medicina, nomeadamente relacionadas com a autonomia e a individualidade das pessoas.

Afirma também que passou a dedicar mais tempo às conversas sobre consentimento informado, utilizando uma linguagem mais simples para explicar riscos e incertezas e reforçando que a decisão pertence sempre ao doente.

Parker Pyne Investigates, de Agatha Christie

Lucy Hooper, médica de Medicina Geral e Familiar, destaca a coletânea de contos Parker Pyne Investigates.

A protagonista das histórias ajuda diferentes pessoas a resolver problemas pessoais através de uma compreensão profunda da natureza humana.

Segundo Hooper, esta abordagem recorda que os doentes raramente revelam a verdadeira causa dos seus problemas logo na primeira consulta.

Na sua prática, procura compreender os sintomas dentro da história de vida de cada pessoa, considerando fatores como a experiência vivida, o ambiente, os valores e as prioridades individuais.

Criar tempo para a leitura

David Tzall sugere uma estratégia simples para quem tem dificuldade em reservar tempo para ler: deixar um livro perto da mesa de cabeceira como um convite permanente à leitura.

Segundo o especialista, dedicar entre 10 e 15 minutos à leitura antes de dormir pode ajudar a relaxar e sinalizar ao cérebro que é momento de desacelerar.

O artigo conclui referindo que, após um dia dedicado ao cuidado dos outros, a leitura pode representar uma mudança de ritmo e uma oportunidade para entrar num mundo completamente diferente, beneficiando simultaneamente o bem-estar do profissional e a sua prática clínica.

Fonte: https://www.medscape.com/viewarticle/its-fact-fiction-could-make-you-better-doctor-2026a10009po

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