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O Dr. Harold Koenig recorda-se da primeira vez em que não apenas falou de espiritualidade com um doente, mas permitiu que ela orientasse o tratamento.
Um trabalhador da recolha de resíduos, na casa dos 30 anos, sobreviveu a uma queda — mas não à agonia que se seguiu. “Foi submetido a uma cirurgia à coluna, mas ficou com dores crónicas intensas”, recorda o professor de Psiquiatria da Duke University School of Medicine. Os analgésicos apenas aliviaram parcialmente a dor e, enquanto lutava para continuar a trabalhar, surgiram depressão e pensamentos suicidas.
“No entanto, tinha uma fé religiosa muito forte”, contou o médico. “Tivemos muitas conversas sobre as suas crenças e sobre porque permitiria Deus que ele sofresse daquela forma.” O doente questionava-se se comportamentos da juventude poderiam estar relacionados com a dor que sentia e se estaria a ser punido.
O médico viu-se a fazer algo pouco habitual. “Rezava por ele todos os dias e dizia-lhe que estava a rezar pela sua vida”, relatou. “Isso significou muito para ele.” Embora já tivesse rezado por outros doentes, nunca o tinha admitido abertamente num ambiente hospitalar. Vinte anos depois, o doente continua vivo e com melhoria gradual. O médico não afirma que a oração tenha sido determinante, mas acredita que “faz diferença ao nível da compaixão”.
Espiritualidade e Prática Clínica
Cada vez mais médicos falam abertamente sobre a dimensão espiritual do seu trabalho. Estudos realizados antes e depois da pandemia mostram um aumento consistente do número de profissionais que afirmam ter crenças ou práticas espirituais, mesmo quando não se consideram religiosos.
Num inquérito nacional recente a médicos de clínica geral, quase sete em cada dez disseram acreditar em Deus ou num poder superior; cerca de metade referiu rezar em privado pelo menos uma vez por semana e uma proporção semelhante declarou acreditar na vida após a morte. Um estudo anterior da Mayo Clinic revelou resultados semelhantes, com 44,7% dos médicos a admitir rezar frequentemente e a maioria a descrever-se como religiosa ou espiritual.
Independentemente do rótulo, muitos médicos não exercem como profissionais estritamente seculares.
Para o Dr. Daniel Sulmasy, médico e especialista em ética, espiritualidade é “a forma como vivemos a nossa vida em relação ao que consideramos transcendental”. Na medicina, isso traduz-se em questões de significado, valores e relação.
A doença desperta inevitavelmente essas perguntas:
Porque está isto a acontecer-me?
Porque acontece ao meu filho?
Há algum sentido no meu sofrimento?
Não são perguntas que se resolvam com análises ou exames de imagem — mas estão presentes em quase todos os quartos hospitalares.
Manter o Sentido num Sistema Exigente
Os sistemas de saúde funcionam com base na ciência e na gestão do tempo. As pessoas funcionam com base na esperança, no amor e no medo. Os médicos trabalham na intersecção destes mundos.
Segundo o Dr. Koenig, muitos médicos evitam o tema porque nunca aprenderam a integrá-lo na prática clínica. O tempo limitado das consultas também dificulta essa abordagem.
Muitos entram na medicina por vocação. No entanto, a formação intensa pode diluir esse propósito. Um estudo da Mayo Clinic mostrou que quanto mais forte o sentido de vocação, menor a taxa de burnout — e o inverso também é verdadeiro.
Em áreas como os cuidados paliativos, a espiritualidade não é um complemento, mas parte integrante do cuidado.
Em contextos oncológicos e paliativos, conversas breves e estruturadas sobre significado e fé estão associadas a maior satisfação dos doentes e melhor qualidade de vida. Pelo contrário, o sofrimento espiritual ignorado associa-se a sintomas mais graves e a cuidados mais intensivos e indesejados no fim de vida.
Isto não transforma a fé num medicamento. Mas sugere que o significado é uma variável clínica que merece atenção.
Evidência Científica
Segundo o epidemiologista Dr. Jeff Levin, “literalmente milhares de estudos” analisaram a relação entre religião, espiritualidade e indicadores de saúde física e mental. De forma geral, conclui, a espiritualidade funciona como fator protetor, sobretudo ao nível da saúde mental.
Um estudo de 2024 com profissionais de saúde na linha da frente da pandemia mostrou que níveis mais elevados de espiritualidade estavam associados a melhor recuperação emocional após trauma.
Ainda assim, os investigadores sublinham cautela: espiritualidade não é prescrição médica. Mas pode ter um lugar relevante no cuidado.
Momentos Sagrados
Muitos médicos descrevem “momentos sagrados” — instantes breves em que sentem que algo mais profundo aconteceu na relação com o doente. Não precisam de ser religiosos. Podem ser simplesmente experiências de conexão humana intensa.
Num estudo recente, médicos que relataram viver estes momentos com maior frequência apresentaram menor probabilidade de burnout extremo.
Reconhecer e nomear essas experiências ajuda a processá-las e pode reforçar o sentido de propósito.
Limites Éticos e Prática Clínica
Uma regra essencial: nunca fazer proselitismo. O doente está vulnerável e tentar influenciar as suas crenças é antiético.
O caminho é seguir a orientação do próprio doente, fazer perguntas abertas e, se necessário, recorrer ao apoio de capelães hospitalares.
Uma ferramenta prática é o modelo FICA, que estrutura a abordagem em quatro áreas:
O objetivo é ouvir, registar e alinhar o plano terapêutico com aquilo que dá sentido à vida do doente.
Espiritualidade e Cérebro
O neurocientista Dr. Andrew Newberg estudou a atividade cerebral durante meditação e experiências místicas. Observou que múltiplas áreas cerebrais são ativadas e que experiências mais profundas envolvem maior ativação dos centros emocionais.
Contudo, sublinha: identificar atividade cerebral não reduz o valor da experiência. A neurociência amplia a compreensão, mas não resolve questões metafísicas.
Em doenças crónicas ou complexas — como cancro, dor persistente, depressão ou ansiedade — o componente espiritual pode ajudar o doente a lidar melhor com o tratamento, promovendo maior adesão e equilíbrio emocional.
A Difícil Consolação
Nem sempre o sofrimento se reconcilia com a fé. Para alguns, fortalece-a; para outros, fragiliza-a.
O Dr. Daniel recorda um erro no início da carreira, durante um procedimento numa doente com cancro da mama avançado. Ao reconhecer o erro e explicá-lo com honestidade, ouviu da doente: “Está tudo bem, doutor. Eu vou morrer de qualquer maneira. Obrigada por me dizer.”
“O mais extraordinário no perdão”, afirma, “é que pode funcionar quando a medicina falha.”
No fim, talvez a espiritualidade na medicina não seja sobre respostas definitivas — mas sobre reconhecer limites, cultivar compaixão e continuar a cuidar sem perder o sentido do que significa ser humano.
VOLTARFonte: https://portugues.medscape.com/viewarticle/fe-misterio-e-significado-medicina-2025a100103p
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