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Todas as semanas, pessoas com cancro ouvem as mesmas palavras.
"Tens de lutar contra isto." "Sê forte." "Não desistas."
E todas as semanas, alguém morre. E a forma como descrevemos é esta: "Perdeu a luta contra o cancro."
Dizemos estas coisas com carinho genuíno. Mas raramente paramos para pensar no que significam para quem as ouve.
Se o cancro é uma batalha, quem morre é um derrotado?
Como um discurso político moldou a forma como falamos de doença
A linguagem militar sobre cancro não é acidental.
Em 1971, o presidente norte-americano Richard Nixon assinou o National Cancer Act, declarando oficialmente uma "Guerra ao Cancro." O objectivo era mobilizar financiamento e atenção pública. Funcionou.
Mas também enraizou uma metáfora na cultura médica que nos acompanha há mais de cinquenta anos.
Os doentes passaram a ser "guerreiros." Os tratamentos passaram a ser "armas." E quem morria tinha, de alguma forma, "perdido."
Susan Sontag antecipou isto. No seu ensaio de 1978, Illness as Metaphor (Doença como Metáfora), argumentou que militarizar a doença não dá poder aos doentes. Sobrecarrega-os.
Desloca o foco da biologia da doença para o carácter da pessoa. E quando o tratamento falha, esse enquadramento não deixa espaço para nada que não seja culpa.
Doentes expostos a linguagem de guerra sentiram-se mais impotentes, não mais motivados
Em 2019, os investigadores David Hauser e Norbert Schwarz publicaram um estudo na revista Health Communication, testando o impacto das metáforas bélicas em quase mil participantes.
Os resultados foram consistentes em quatro experiências.
Pessoas expostas a linguagem de batalha descreveram o tratamento como mais difícil e reportaram crenças mais fatalistas. Não se encontrou qualquer evidência de que estas metáforas aumentem a motivação para prevenção ou tratamento.
Separadamente, Elena Semino e colegas (BMJ Supportive & Palliative Care, 2017) analisaram a forma como os doentes usam metáforas online.
Algumas pessoas retiram força genuína da linguagem de "luta." Mas muitas outras sentem-se desempoderadas por ela, especialmente quem se aproxima do fim de vida.
"Lutar contra o ele seria declarar guerra a mim mesma"
Kate Granger era médica britânica e tinha cancro terminal.
Em 2014, escreveu no The Guardian que o cancro nasceu do seu próprio corpo. Lutar contra ele seria declarar guerra a si mesma.
Quando dizemos a alguém "tens de lutar", estamos a colocar-lhe uma responsabilidade que não lhe pertence.
Quem tem dias maus sente que está a desiludir quem o rodeia. Quem precisa de descansar sente que está a "fraquejar." Quem decide parar tratamento sente que está a "desistir."
Para a família, não é diferente.
Quando explicamos às crianças que o avô "está a travar uma batalha", estamos a preparar uma narrativa em que alguém que amam pode "perder." Esse enquadramento molda a forma como uma criança processa o luto durante anos.
Em cuidados paliativos, dizer a alguém para "continuar a lutar" pode ser o mais cruel
A absurdidade da linguagem de guerra torna-se mais visível quando o objetivo já não é a cura, mas o conforto, a qualidade de vida e a dignidade.
Dizer a alguém que deve "continuar a lutar" não é apenas inútil. Nega-lhe permissão para estar em paz com o ponto onde se encontra.
O que dizer em vez disso (e porque é que importa)
Isto não é sobre proibir palavras.
Algumas pessoas vão sempre encontrar força na linguagem de batalha. Isso é legítimo.
Os profissionais de saúde deverão ter a responsabilidade de perceber como as suas palavras chegam ao outro lado.
Perguntar, não assumir. Nem todos os doentes querem ser "guerreiros." Alguns querem ser ouvidos. Alguns querem que lhes digam que não faz mal descansar.
Observar os seus automatismos. Se todas as conversas, todos os registos clínicos, todas as mensagens à família usam linguagem de guerra, isso deixa de ser uma escolha e passa a ser um guião.
Oferecer alternativas.
"Estou aqui." "Não tem de ser forte todos os dias." "Pode falar ou não falar sobre isso. Eu fico na mesma."
Estas não são palavras mais fracas. São palavras mais honestas.
VOLTARFonte: https://aim.clinic
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