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Um exame de sangue capaz de detetar precocemente mais de 50 tipos de cancro continua a despertar interesse na comunidade científica. No entanto, os resultados mais recentes mostram um cenário que combina potencial com importantes limitações, reforçando a necessidade de uma avaliação cuidadosa antes da sua utilização em larga escala.
No artigo "Novas evidências sobre o exame de sangue que pode detetar até 50 tipos de cancro", publicado na Medscape, o cardiologista Mauricio Wajngarten analisa os dados atualmente disponíveis sobre o teste Galleri.
O Galleri é um teste de deteção precoce de múltiplos tipos de cancro realizado através de uma simples colheita de sangue.
Segundo o autor, trata-se de uma biópsia líquida que analisa ADN tumoral circulante e padrões de metilação para identificar sinais de mais de 50 tipos de tumor, incluindo alguns para os quais ainda não existem protocolos de rastreio bem estabelecidos, como os cancros do ovário e do pâncreas.
O artigo reúne resultados de diferentes estudos que avaliaram o desempenho do teste.
Realizado no Reino Unido com mais de 140 mil participantes, o estudo não demonstrou uma redução estatisticamente significativa da incidência de cancro em estádios avançados (III e IV).
No entanto, observou um aumento dos diagnósticos em fases iniciais da doença e uma redução dos casos identificados em contexto de urgência.
Desenvolvido em Inglaterra e no País de Gales, envolvendo 5.461 doentes sintomáticos, o estudo apresentou:
Os estudos de validação realizados em indivíduos sem sintomas demonstraram uma sensibilidade global de 51,5%.
No entanto, a capacidade de deteção foi significativamente inferior nos tumores em estádio I, atingindo apenas 16,8%, aumentando progressivamente até 90,1% nos tumores em estádio IV.
Segundo o artigo, mais de 111 mil testes realizados em contexto clínico mostraram uma taxa de deteção de sinal de cancro de 0,91%, com uma precisão de 87% na identificação da provável origem tumoral.
De acordo com Mauricio Wajngarten, o teste oferece a possibilidade de identificar cerca de 50 tipos de cancro em fases iniciais, quando o tratamento tende a ser mais eficaz.
Além disso, apresenta elevada especificidade, superior a 99%, com poucos falsos positivos, sendo também capaz de indicar a provável localização do tumor.
O autor sublinha, contudo, que o Galleri não substitui exames de rastreio já estabelecidos, como a mamografia ou a colonoscopia, funcionando como uma ferramenta complementar que poderá ampliar a cobertura do rastreio oncológico.
Apesar dos resultados promissores, o comentário destaca várias limitações.
A sensibilidade continua a ser reduzida nos estádios iniciais da doença e o valor preditivo positivo varia entre 43% e 75%, o que significa que uma parte dos resultados positivos poderá não corresponder a um diagnóstico confirmado de cancro.
O artigo refere ainda que não existe, até ao momento, demonstração de que este exame reduza a mortalidade por cancro.
A American Gastroenterological Association (AGA) considera que os testes para deteção de múltiplos tipos de cancro necessitam ainda de validação cuidadosa, salientando que os exames confirmatórios podem não ser perfeitos, que os custos e recursos necessários são elevados e que permanece por esclarecer o impacto destes testes na redução da mortalidade.
O estudo SYMPLIFY demonstrou igualmente que a precisão do teste varia de acordo com a forma como os doentes são encaminhados, com o agrupamento de sintomas e com as características individuais de cada caso.
Por esse motivo, o autor reforça que a interpretação dos resultados deve sempre considerar o contexto clínico de cada pessoa.
Além disso, um resultado positivo implica habitualmente a realização de exames complementares de imagem ou biópsias, podendo aumentar a ansiedade em pessoas assintomáticas, para além do impacto económico associado.
Segundo Mauricio Wajngarten, o teste já se encontra disponível nos Estados Unidos e está a chegar ao Brasil, inicialmente em clínicas privadas e mediante prescrição médica.
Apesar do potencial demonstrado para transformar o rastreio oncológico, o autor considera que a sua integração mais alargada dependerá de novos estudos que avaliem a relação custo-benefício e o impacto real na redução da mortalidade.
Conclui que o Galleri deve, para já, ser encarado como uma ferramenta complementar aos métodos tradicionais de rastreio e não como um substituto destes, até que estudos de longo prazo confirmem o seu benefício clínico.
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