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Por ocasião do Dia Mundial da Saúde Sexual, Nuno Bonito, presidente da Sociedade Portuguesa de Oncologia (SPO), assinou um artigo de opinião sobre o impacto do cancro e dos tratamentos no bem-estar íntimo e na qualidade de vida dos doentes.
Segundo os dados referidos, até 66% das mulheres e até 60% dos homens com cancro experienciam disfunção sexual. Neste contexto, o especialista defende que a saúde sexual seja integrada, de forma sistemática e sem preconceitos, no acompanhamento oncológico.
Para Nuno Bonito, a principal missão da Oncologia é prevenir, diagnosticar e tratar a doença, aumentando as probabilidades de cura, prolongando a sobrevivência quando a cura não é possível e preservando a qualidade de vida. No entanto, viver mais não pode ser o único objetivo.
O presidente da SPO considera que o sucesso terapêutico não se mede apenas pela resposta à doença, mas também pela capacidade de preservar o bem-estar físico, psicológico, social e relacional da pessoa. É neste ponto que surge uma dimensão frequentemente esquecida dos cuidados oncológicos: a saúde sexual.
Segundo o especialista, a sexualidade continua a ser insuficientemente abordada na prática clínica, muitas vezes por constrangimento, falta de informação, escassez de tempo ou pela perceção errada de que existem assuntos mais prioritários. Contudo, para muitas pessoas que vivem com cancro, as alterações na sexualidade estão entre as consequências com maior impacto na qualidade de vida.
Também do lado dos doentes existe silêncio. Muitos não colocam questões sobre sexualidade por vergonha, receio ou por acreditarem que não existem soluções. Outros consideram que falar destes temas é inadequado num contexto de doença grave.
Os tratamentos podem provocar alterações físicas relevantes, como fadiga, dor, alterações hormonais, infertilidade, alterações da função sexual, disfunção erétil, secura vaginal, diminuição do desejo sexual ou dificuldades na resposta sexual.
Mas o impacto vai além do corpo. A imagem corporal e a autoestima podem ser afetadas, e podem surgir medos, inseguranças e dificuldades na relação consigo próprio e com o outro. Muitos doentes deixam de se reconhecer no seu corpo ou sentem que perderam uma parte importante da sua identidade pessoal, afetiva e relacional.
Por isso, sublinha o autor, falar de saúde sexual em Oncologia não é apenas falar de atividade sexual. É falar de intimidade, afeto, proximidade, autoestima, desejo, identidade e da capacidade de estabelecer e manter relações significativas — uma dimensão reconhecida pela Organização Mundial da Saúde como parte integrante do bem-estar físico, mental e social.
Foi com este enquadramento que a SPO lançou a campanha “Não deixemos a sexualidade fora da consulta”, que inclui fichas informativas e um podcast dedicado. O objetivo é promover uma maior consciencialização para uma necessidade frequentemente silenciosa e insuficientemente valorizada.
Uma das mensagens centrais da campanha é que a saúde sexual deve ser considerada em todas as fases. Antes do tratamento, pode ser necessário discutir questões relacionadas com a fertilidade, a preservação da função sexual e os potenciais efeitos dos tratamentos. Durante, importa antecipar sintomas, esclarecer dúvidas e identificar estratégias que ajudem a preservar o conforto, o bem-estar e a intimidade. Depois, porque a remissão da doença ou a conclusão dos tratamentos nem sempre correspondem à recuperação emocional, afetiva ou sexual, sendo frequentemente necessário um acompanhamento continuado.
Nuno Bonito defende ainda que não deve ser sempre o doente a iniciar esta conversa. Também os profissionais de saúde têm a responsabilidade de criar um ambiente de confiança que permita abordar estas questões de forma natural, informada e sem preconceitos.
O especialista considera que esta é uma área que beneficia de uma abordagem multidisciplinar, envolvendo médicos, enfermeiros, psicólogos, sexólogos, especialistas em Medicina da Reprodução, fisioterapeutas e outros profissionais de saúde.
Os materiais da campanha destinam-se a doentes, sobreviventes e parceiros, com o objetivo de esclarecer dúvidas, combater mitos e promover uma comunicação mais aberta. O podcast reforça a ideia de que a saúde sexual não pertence a uma única especialidade, sendo uma responsabilidade partilhada por todos os que cuidam de pessoas com cancro.
Para o autor, o número crescente de sobreviventes de cancro é uma das maiores conquistas da Medicina contemporânea e traz consigo uma responsabilidade acrescida: garantir que a sobrevivência é acompanhada pela melhor qualidade de vida possível. O presidente da SPO termina com um apelo a que se fale mais, se escute melhor e se crie espaço para estas conversas, porque cuidar verdadeiramente da pessoa implica olhar para todas as dimensões da sua vida, incluindo a saúde sexual e afetiva.
VOLTARFonte: https://myoncologia.pt/opiniao/a-sexualidade-tambem-faz-parte-do-tratamento-do-cancro
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