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IA e confiança: o que continua a ser exclusivamente humano na relação entre médico e doente?

2026-07-17

IA e confiança: o que continua a ser exclusivamente humano na relação entre médico e doente?

Reflexão sobre os limites da Inteligência Artificial na Medicina: por que motivo a confiança entre médico e doente continua a ser insubstituível nas decisões clínicas mais complexas

A relação de confiança entre médico e doente continua a ser um elemento essencial dos cuidados de saúde, mesmo num contexto em que a Inteligência Artificial (IA) assume um papel cada vez mais relevante. Esta é a principal reflexão apresentada por Robert M. Wachter, professor e diretor do Departamento de Medicina da Universidade da Califórnia, em São Francisco, no comentário "Bot or Not? What's Uniquely Human in Doctor-Patient Trust", publicado na Medscape.

Segundo o autor, a IA poderá assumir diversas tarefas na prestação de cuidados, mas continuam a existir aspetos da relação clínica em que a componente humana permanece determinante.

A confiança é essencial para um diagnóstico e tratamento adequados

Robert Wachter defende que a confiança é indispensável em todas as fases da relação entre médico e doente.

Segundo o autor, apenas quando existe confiança suficiente é que muitos doentes se sentem confortáveis para partilhar medos, vulnerabilidades e informações pessoais que podem ser fundamentais para um diagnóstico correto.

Da mesma forma, essa confiança influencia a aceitação das recomendações terapêuticas, sobretudo quando envolvem decisões difíceis ou tratamentos exigentes.

Nem todas as decisões devem ser delegadas na Inteligência Artificial

O autor considera que algumas tarefas clínicas poderão vir a ser desempenhadas pela IA, libertando tempo aos médicos.

Como exemplo, refere que aceitaria que um sistema de IA emitisse prescrições para medicação já estabilizada, desde que essa utilização estivesse comprovadamente validada.

No entanto, distingue claramente essas situações de decisões clínicas com maior impacto, como comunicar um diagnóstico de cancro ou decidir a necessidade de uma cirurgia, áreas em que considera importante manter o profissional de saúde no centro da decisão.

Definir os limites entre o papel da IA e o papel do médico

Segundo Robert Wachter, um dos principais desafios consiste precisamente em determinar quais as tarefas que podem ser executadas autonomamente pela IA e quais continuam a exigir a intervenção direta de um profissional.

O autor considera que, em muitos cenários, poderá existir um modelo de colaboração entre a IA e o médico, embora reconheça que a implementação prática dessa articulação seja complexa.

Acrescenta ainda que fatores como a regulamentação, os sistemas de pagamento, as regras de privacidade e a responsabilidade profissional tornam esta integração ainda mais desafiante.

As pessoas tendem a confiar mais em quem do que em quê

Uma das reflexões centrais do comentário prende-se com a forma como os seres humanos constroem confiança.

Segundo Robert Wachter, as pessoas tendem a confiar mais em "quem" do que em "quê". No entanto, os modelos atuais de IA introduzem uma situação inédita: uma tecnologia que comunica de forma semelhante a uma pessoa.

Para o autor, esta característica pode levar algumas pessoas a atribuírem um nível de confiança excessivo à IA apenas porque esta responde de forma natural e humanizada.

A acessibilidade poderá alterar a forma como os cuidados são prestados

Robert Wachter levanta ainda questões sobre a forma como fatores como o tempo de espera, os custos e a disponibilidade permanente da IA poderão influenciar as escolhas dos doentes.

Refere, como exemplo, situações em que um doente possa optar entre aguardar várias semanas por uma consulta médica ou recorrer imediatamente a um sistema de IA disponível 24 horas por dia.

Segundo o autor, estas são algumas das questões mais profundas que os sistemas de saúde terão de enfrentar à medida que a utilização da Inteligência Artificial evolui.

Em conclusão, Robert Wachter considera que, apesar do enorme potencial da IA na área da saúde, a confiança entre médico e doente continua a desempenhar um papel central, sobretudo nas decisões clínicas mais complexas e nas situações em que a componente humana permanece determinante.

Fonte: https://www.medscape.com/viewarticle/bot-or-not-whats-uniquely-human-doctor-patient-trust-2026a1000mfz

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